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Pequenas alegrias: rever o "Picnic"

Domingo, 07.03.10

 

Hoje, no canal Hollywood. Difícil explicar como este filme me hipnotiza. Não é o único, mas tem sempre este efeito.

A peça, os diálogos, as personagens, são parte da explicação. Os actores também. A realização, a atmosfera, as cenas, os planos, o ritmo. O cenário, a época. A atmosfera de todo o filme.

 

Ao rever Picnic, talvez pela quarta vez, lembrei-me que tenho de actualizar o meu perfil, na parte dos filmes preferidos. E já agora, os livros também. Esta lista de autores acompanhou uma parte do meu percurso e por isso lhes estou grata. E à vida também. Como poderia ter sobrevivido estes anos todos se não fossem os meus autores? Impossível. Mas descubro, com alguma perplexidade, que qualquer coisa de fundamental se está a revelar através das alterações na minha lista de filmes preferidos.

 

Picnic faz parte dessa lista de filmes, e eu nem tinha reparado. É sempre a mesma magia. Aqueles subúrbios nos anos 50, uma cidadezinha a crescer, com rituais culturais de cidade do interior, de uma vida muito comunitária. De estratos sociais muito definidos. De ambições legítimas de um lugar ao sol. De oportunidades que se têm uma vez na vida. De inícios de percursos até aí apenas acessíveis a alguns.

 

Estereotipos sociais de que é difícil escapar: o atleta que podia ter sido alguém se não tivesse reprovado no 3º ano da faculdade; o filho de pai rico e a aprendizagem da gestão da empresa; o pai rico e competitivo, respeitado na cidade; o homem solteirão habituado ao seu espaço e aos seus hábitos; a rapariga bonita e encantadora, que quer amar e ser amada; a rapariga inteligente, a intelectual; a mãe, que apenas quer o melhor para as suas filhas, mas segundo a sua própria perspectiva; a mulher tranquila e realista que serve de suporte afectivo àquela mulher que o homem abandonou, e às suas filhas; a professora independente, que percebe subitamente que a arrogância a distanciou das suas verdadeiras necessidades.

 

Como escapar ao estereotipo social numa pequena comunidade?

A rapariga bonita consegue. Depois de ajudar o homem, a quem consideram falhado, a ver-se a si próprio pelo seu olhar carinhoso e generoso: tens óptimas qualidades. É dessa amabilidade que o homem precisa para acreditar em si próprio e recomeçar de um outro ponto de partida. Ele também lhe mostrara que ela era bem real, de carne e osso, e não uma miragem que serve de troféu.

A professora independente também consegue. Reconhece o seu erro nessa noite de loucura e de lucidez, e revela o seu receio essencial ao namorado solteirão que ainda tenta esquivar-se. Em vão. Na manhã seguinte já tem o destino traçado: casamento e lua-de-mel.

 

Nunca poderemos avaliar os efeitos nocivos e perversos dos estereotipos sociais. É certo que as pessoas têm esta terrível tendência de arrumar tudo em gavetas e prateleiras, mas tal nunca será possível com a complexa natureza humana. Nem benéfico.

E é bom saber que, mesmo tendo vivido com esse limite, é sempre possível alterar esse condicionamento, esse papel pré-definido, de um comportamento expectável.

 

 

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publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 16:13








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